Jussara Salazar : 5 poemas
A porta dos sonhos:
Bakun quer reza. Mas continua deitado, e as borboletas cobrem seu corpo. São muitas, de todas as cores e fazem ruídos na sentinela, mas ele não acorda, não levanta. Uma nuvem de cigarras estridentes passou em revoada e mesmo assim Bakun ainda dorme. Sua matéria é espessa, azul, de todas as cores como as borboletas. Seus nervos vermelhos estão quietos. Ali adiante tem uma porta, bem à frente quando abre vê-se um céu, um abismo, uma serpente digerindo a vida. Se ele resolvesse levantar, poderia dirigir-se até à porta, ser engolido pela serpente da vida. Mas continua deitado entre as velas. Sua voz, em falsete, canta suave voz embala los niños que também, como ele, dormem. Ainda é cedo. Ainda há ouro nessa morada. Clareia Bakun. Clareia.
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barrocoque das 3 salamantas
Pulavam no cortado sus chapins royales-pesponteados vindos inda ontem do turco armarinho – um angu – brechó de atavios berloques e babados gritados entre bainhas vidrilhos ocelos cintilantes, berrantes. Abóbada em caracol ecoavam a sussurrada rezaria/reflexo (glassdoors) na parafina acesa gotejando morna e sibilante nos ladrilhos coloniais. Luz divina, eram Rosário, Floralva e Dos Anjos. Salamanta por parte de mãe, unha e carne pelo hostiário que lustravam juntas, sagração e elogio mor, uma a cópia fiel da outra. Os alfinetes cosiam o vestido eterno a rainha de copas vagas horas em desvarios. Horas pelas horas gastas, oxidando ornato e laca engomada nas tranças ao topo da cabeça, castos fios em milimétrica geometria (saecularium domini) desatados apenas à vigília velada de noites escuras, atravessada ópera das muriçocas. Dia à pino sentavam-se embaixo da canforeira parolando sob a alfombra a grama entre canteiros exatos no glacê lustroso, polindo ferrugens pingentes ninharias e nesgas, ai! do amor tão antigo, o tule e anéis dourados jogados ao tempo obsoleto aqui nesse instante do que era vida agora, ai! sou o amor esse que vos fala.
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Pele voile
A dona rebolava aa luz do meio-fio no vagar cadenciado, pantera no rastro do pontiagudo salto 15, medusa na meia de nylon felina comprada lá na Rangel. Aura jóia barata em forma de flor no cabelo armado, mise-en-plis sobre o áspero spray aromando à colônia Parisiana. Lily era seu nome de guerra e morava em cada esquina do cais, vedete ondulada do teatro Marrocos — joelhos redondos e ofegantes, boquita encarnada no rouge arrebitando as faces. O público aplaudia enquanto bailava enroscada em Madra, a serpente que dobrava-se apática ao fervor da platéia fumeante do streap. Depois a dona perdia-se nas brumas de luz nas ruelas, chiaroscura sílfide no brim colado, justo, ao relento de rendas tênues gastas de urdir suas curvas na cinta-liga durando hasta a aurora no ônibus lotado, às 00:07. Um dia, acharam o corpo, náusea e estrias, boiando shakespeareano sobre o rio. Nas costas de cera de Lily a tatuagem: uma imagem de Cosme e Damião de mãos dadas e 2 lírios entrelaçados onde se lia a palavra:
“Tentación”
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sacrário
Quando eu morrer dêem-lhe fôlego carnoso um céu quando se acende áurea a hora, sol e violoncelo.
Passem-na boiando entre as flores primaverais descendo rio abaixo rápido até o fim. Numa pirágua caraíba recolherão o corpo, envolvendo-o num manto celeste, manto, medida exatidão do que foi. Imo afago.
Uma volata de pássaros ruidosos corte e silêncio lapso/átimo a embarcação suave corrediço aquoso, não mais a pressa.
Nada adiantam os gritos a fundura da terra, a alma vegetal repousa aguarda a próxima estação estância que atravessando burla o tempo o sol a chuva de cristal canto mudo do vento coração da terra.
Um líquen recente cobre-lhe agora zodíaco móbile, expande se guia e que o calígrafo chino inscreva a pele inteira, cada asteróide pontue se corpo celeste orbitando – perplexo – abismado traçado flutuante, isso a cigana leu 3000 dantes. Leu.
A vereda trará peixes burlescos.
o corpo alçado leve subirá
nave
alvíssimo ovo.
( Open My Kingdom )
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Gladíolos, anéis, a partilha
Mamãe está sentada ao lado do espelho. Penduricalhos sem valor roçam-lhe as ancas na seda que a criada estica sobre o banquinho de veludo. Encaracola os cabelos o chinó sem guerra e sem vício, acaricia o escapulário entre os seios onde pendem borlas cor de vinho do decote, babados. Um cheiro de ópio irisa as narinas de mamãe. Lembranças da guerra restam agora no marinheiro refestelado na alcova à meia luz, inner stage, a delícia dos olhos que toca seu corpo em meio à fumaça. Ontem pela manhã, de seu inventário o amanuense fez constar primeiramente:
1 colar de ouro de sobre opa, outro colar de ouro de sobre opa, outro colar de ouro de garganta de ponta que tem 2 balaifes e grossas,
outro colar de ouro de garganta com pendente que tem 1 diamante, 11 rubis e 11 pérolas grossas, outro colar de ouro de garganta com arguanéis e esmaltes, 1 cadeia de ouro de garganta que tem sessenta e 4 cristais, 1 cadeia de ouro de sobre opa, 1 jóia de ouro que tem 1 diamante, 1 rubi e 2 pérolas grossas, 8 anéis de ouro de grandes rubis, 5 anéis de ouro de grandes rubis,
17 anéis de ouro de bons rubis, diamantes e esmeraldas, 3 crespinas grandes de felpa de ouro fiado, outras 3 crespinas de ouro fiado de lavor de flores, 1 crespina de ouro tirado por fieira e de prata com 162 pérolas. 2 crespinas de ouro fiado e de seda, 5 crespinas de ouro fiado e de seda. 1 fio de ouro fieira que tem 22 pérolas muito grossas, outro fio que tem 68 pérolas grossas.
22 toucas, 37 enxaravias de todas as cores, 8 espelhos de âmbar, 12 espelhos da Alemanha, 31 pentes, 3 pentes de fazer cordões, 27 meadas de seda, 16 meadas de seda, uma soma grande de algodão, 6 pares de chapins dourados, 1 opa de brocado de rico carmesim, 1 opa de brocado verde rico, 3 cotas dos ditos brocados, 1 opa de veludo carmesim aveludado.
Outra opa de veludo preto, outra opa de veludo roxo, outra opa de veludo verde de tércio pelo, outra opa de veludo pardo, 1 cota de veludo roxo, outra cota de veludo carmesim, outra cota de veludo preto, outra cota de veludo alaranjado, outra cota de veludo verde.
Outra opa de pano encarnado, 6 cotas de panos finos de lã, 6 fraldilhas de panos finos de lã, 1 manto de veludo preto, um mantão, 1 tabardo, 1 funda e almofada para sela de veludo preto, 1 camisa grande mourisca, 3 camisas brosladas de ouro, 18 camisas de lenço da Holanda, 34 varas de lenço da Holanda, 22 varas de lenço francês, 12 peças de cordões, 6 peças de fitas.
Uma vestimenta de brocado carmesim, outra vestimenta de cetim aveludado carmesim, 2 sobre-pelizes de lenço francês, um pano de cetim carmesim, 8 cotas de cetim aveludado, 7 opas de escarlate, 4 crespinas de ouro fiado e 8 crespinas de ouro fiado.
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Jussara Salazar
joseKozer@hotmail.com
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