FILÓSOFOS, COGUMELOS
Rumor de verde-água esse bosque de caninos que desaparece.
Trevos
na boca
— odor
de cogumelos
e lua-de-
mosquitos —.
Estranha senhora fênix viaja em
caligrafia sua
tiara
azul.
Vagares da lua de outono biombo jasmim dragão
no teto
curvo
como atravessar
espelhos.
— Armas e cascos de cavalos
ao longe —.
Filósofos-de-laca conjeturam possíveis amanhãs
LAGARTO, COTOVELO
Invocar o girassol para tingir o réptil com as cores do cone.
Em jornadas
de camelo,
apetecer lides
de batráquio.
Pautar acéfalos conjuros para espectros aguardados
como cópulas
de insetos.
Imantar
afazeres
de mandrágora.
Atender vozes de matéria semimorfa
afogando lábios
entre
cotovelos.
Separar vértebras como samsárica fera diamantina
expelindo pétalas
de rosa.
Decepar a cabeça esbranquiçada do lagarto
e sorrir
com a precisão monótona
do gárgula.
Por fim, retocar a face de pânico com grafias de ausência
que espelham
dois abismos.
LEOA, CLAVÍCULA
Jovem negra pinta de azul-violeta as pontas dos mamilos.
Há jaguares
sob as unhas.
Mímica
de esfinge
nos pulsos.
Núbia voz animal raio-de-pedra golpeia nudez janaína
reflexo de híbrida
orquídea
ou seio-
noite-
flor-
que incandesce.
(Três colares
de relva;
riscos
gravados
na rocha,
sortilégio.)
(Pintura: mascar o carvão leonino da desértica
epiderme,
ruminando
arenoso
até cantar
a clavícula.)
PAVÃO, MARTELOS
Recomeçar a travessia do elefante, a via do esqueleto
e do coágulo.
Até queimar
o sol.
Mascando insanidade,
em ofício rouco
de martelos,
repetir o ato insone, raquítico, epilético.
Retribuir ao medo uma jóia
minúscula.
Fabricar, com as próprias mãos,
um pavão real
— e depois
cegá-lo.
Fornicar o amarelo — abstração
do violeta —
e desfazer
a palavra
estrela.
Até queimar
o sol.
Ser asqueroso, simples e tosco.
Desejar lutar
com Deus.
Por fim, recolher
as metades
do rosto,
e ver a luz refletida na mina
do mistério.
PARAFUSO, ESCARAVELHO
Água-de-serpente para esquecer jamais esta música de peles.
Quem conta fêmures e pêlos desalinhados
da fêmea
apodrecida.
Mais negro do que a negra mariposa pedra do esquilo
roendo restos
de não.
Estamos cáusticos
e nus.
Corpo e palavra são flores pontiagudas
que laceram.
Você sempre diz o azul-granizo:
céspede
ou áspide
que anoitece.
Ser o lobo e mais que isso: ser o Lobo do vermelho
tardio em
jades de ninfeta:
aqui escrevo ilha — facas de pomba cega,
estrela morta
em diapasão
ou luas
de capricórnio?
Tudo o que eu amo
— sim —
corre no tempo com a velocidade do parafuso
e do escaravelho.
(Entre fólios de ciência antiga e espectros de monjas nuas desencarnadas.)
(Olhos opiados afundam em partituras da Outra Margem.)
(Ruge um leão hipnótico.)
(Letras sangradas na pele de carneiro. Figuras metálicas em expansão.)
(Palavras criam realidades.)
(Traças cavam sendas no papel.)
(Toda leitura é uma cicatriz.)
Claudio Daniel
claudaniel@ig.com.br
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